Como e por que a literatura me fisgou

O INÍCIO DE TUDO


Minha história literária começa com a ausência de livros. Não havia esse objeto com cheiro, recheado de histórias ou poesias, em minha casa, na fazenda. Meu pai tinha um violão que mantinha fora do alcance dos oito filhos e fazia desafios com os irmãos. Que talento o dele para rimar, e de improviso! Talvez aí, aos cinco, seis anos, eu tenha tido meu primeiro contato com a arte. Mas aos sete aprendi a ler, aos oito, nove, dez anos, eu devorava os livros didáticos logo no início do ano. Não esperava as aulas de português.


Sim, quando minha mãe comprava o material didático, no início do ano, eu experimentava um êxtase ao pegar o livro de língua portuguesa para ler poemas de Carlos Drummond de Andrade, Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto, Oswald de Andrade, Mário de Andrade. Ah, as crônicas de Clarice Lispector! Lembro-me de uma em que ela se dizia tímida, uma “tímida ousada” e aquela era eu mesma. Por isso a paixão enorme por essa escritora. Outro cronista, Rubem Braga, me deixou encantada com a escrita e, então essa era minha biblioteca, os livros didáticos.


Não havia biblioteca na Escola Estadual Mariana Tavares, em Patrocínio. Raramente a professora nos passava um livro de literatura, e, quando acontecia, não podia ser mais gratificante pegar naquele objeto mágico, ter o imenso prazer em conhecer uma nova história.

Lá pelos 12 anos comecei a escrever poemas. As páginas que sobravam das matérias convencionais, no final do ano, eram preenchidas por experimentos poéticos. Até que meus pais passaram a comprar cadernos onde eu exercia o ofício de poeta, tentando imitar os grandes, como Drummond e Cecília. Especialmente estes. Ainda guardo alguns cadernos como testemunha da tentativa.


NASCEM OS LIVROS


Depois de enviar originais de poesia a concursos literários e receber um retorno de uma professora de literatura de que eu abusava dos arquétipos, nos meus 19, 20 anos, desisti do gênero e fui escrever prosa. Montei um romance que se passava num hospício, mas ele ficou tão louco, sem sentido e sem propósito, que tive uma ideia que salvou aquela escrita e ditava o nascimento de meu primeiro livro. Picotei as narrativas e fiz dele uma coletânea de contos. Assim nasceu “The cães amarelos”, lançado como edição totalmente independente, em 1991 – só me dei conta de que completo 30 anos de vida literária ao escrever este texto. Ninguém entendeu o porquê do “the” e achei melhor não explicar, afinal, não tinha mesmo explicação. Os contos eram bem surrealistas, mas até hoje vejo qualidade literária neles, a influência de Caio Fernando Abreu e Hilda Hilst, que eu lia à época.

A repercussão do livro foi boa, pois não havia tantas publicações e, como já atuava no jornalismo (era repórter do Diário do Comércio), consegui colocar notas em vários jornais e dar entrevista para rádio. O lançamento ocorreu no Sindicato dos Jornalistas e eu tinha feito uma pré-venda muito boa para viabilizar a impressão (foram 700 livros vendidos antes do lançamento, em cotas, um número que hoje impressionaria!).

Mas o trabalho foi tomando meus dias, veio o casamento, vieram os filhos, e fui dedicando cada vez menos tempo para a escrita. Foi somente em 2007 que decidi terminar um romance que eu havia começado dois anos antes. De férias, fui para a casa de minha mãe em Patrocínio, e fiquei 15 dias praticamente mergulhada no texto de “A invenção do crime”, este sim, pensado a partir de pesquisas e do conceito de desconstrução do filósofo francês Jacques Derrida. No ano seguinte enviei o texto à Editora Record, com uma cartinha do saudoso Moacyr Scliar, que tinha adorado o livro. Ainda hoje guardo o e-mail recebido do editor Sérgio França respondendo “É com prazer que publicaremos seu belo romance”.

Então, em 2010, após os trâmites demorados de uma grande editora, o livro era lançado e distribuído por todo o país. Não vendeu muito, ultrapassou pouco as vendas daquele primeiro livrinho mal feito (mas com uma capa impressionante do amigo Renato Athayde). No entanto, eu tinha conquistado o status de ter publicado sob um crivo importante, o que dava ânimo para continuar.

Mantive o gosto pelo romance policial e dois anos depois lançava “Quando os bandidos ouvem Villa-Lobos”, este por uma editora independente de Belo Horizonte, a Manduruvá, do amigo Roberto Mendonça. Pela mesma editora, em 2015, saiu outro de contos, “O livro de cada um”, lançado durante o Festival Literário Internacional de BH, do qual eu fui curadora, ao lado de Afonso Borges e a espanhola Beatriz Hernanz. Da mesma forma gosto dos contos, narrativas que buscam dissecar a alma humana ou não humana de todos nós.

Até então, eu achava que não escreveria para crianças, pois as considerava inteligentes demais para um texto meu. Comprava e lia bastante publicações infantis para meus filhos, via como eram mágicas aquelas histórias curtas e não me achava capaz delas. Mas a criação da Páginas Editora me levou a um outro relacionamento com as obras para crianças e acabei tomando coragem. Se observarem bem, meu primeiro livro infantil, “As árvores invisíveis”, traz traços do romance policial, ao construir o suspense envolvendo Sebastião, um menino que vê criaturas estranhas pela cidade, que ele não sabe se são do bem ou do mal.

Depois de 2018, com essa estreia e vários eventos levando o livro e seu marcador com sementes de ipê, escrevi junto com meu filho, Gabriel Poesia, e inspirado no meu irmão Flavim – ávido torcedor do Cruzeiro, jogador e exímio treinador de futebol (hoje tem uma escolinha em Carmo do Paranaíba) – “Os super-heróis da bola”. Foi uma diversão, mas devo confessar que 70% do livro veio mesmo de Gabriel. O lançamento foi em 2019, e, no ano seguinte, lancei “Minha casa é o mundo”, onde uma criança, que não sabemos se menino ou menina, encontra o aconchego e a diversão da própria casa onde quer que vá. Agradeço aos ilustradores que acrescentaram muito a essas narrativas e são, pela ordem: Mariana Tavares, Nelson Flôres e Felipe Tognoli.

Então, finalmente, em 2021, surge o livro de poesia, o gênero com que iniciei as tentativas lá na adolescência e só agora consegui tirar das entranhas. “A casa dos poetas minerais” foi escrito em quatro dias. Mérito? Não sei, talvez tivesse que deixar amadurecer os textos, mas ele seria colocado num edital, então eu precisava escrever rápido. Sei que recebi ajuda das centelhas divinas desse nomes. Não acredito que o tenha escrito sozinha. Fato é que o livro saiu, foi aprovado e aí está. O poemas constroem uma casa de adobe para receber, um a um, poetas de ontem e de hoje que são eternos e não podem ser esquecidos.

Assim, escrevo uma vida de letras menos presentes do que eu gostaria. Escreveria mais, não fosse a necessidade do pão. Mas o gosto por esse exercício de criar é para sempre, alimento da essência. Sabe quem escreve. Preparo-me para voltar ao romance, possivelmente em 2022 estarei apresentando aos meus leitores uma narrativa longa de que já ensaiei vários começos.

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